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E se o 'hoje' fosse para sempre?

H ouve uma altura em que imaginei na minha cabeça um cenário em que um Médico estava a falar com a Catarina, a dizer que não havia progressos desde o meu internamento. Na minha cabeça, desenhou-se um cenário que, de tão nítido, se tornou a minha verdade: vi um médico a falar com a Catarina. As palavras dele ecoavam com uma frieza definitiva: não havia progressos desde o meu internamento.  O que visualizei na minha cabeça era uma imagem em que eu estava numa garagem a ser deslocado para uma ambulância e a conversa decorria como forma de enquadrar a minha transferência para uma instituição de outro género de cuidados que não um hospital. Pareceu-me igualmente perceber que este era um dia especial porque era o dia do meu aniversário. Ora, tendo em conta que o meu aniversário é em Novembro, isto queria dizer que eu estava desde Março até Novembro no mesmo estado, ou seja, 8 meses. O Coma tinha sido um grande vazio que não me tinha deixado memória e agora que despertava, estava apenas a...

1º Dia Fora deste mundo

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  As minhas memórias da fase em que estive em coma induzido são mínimas. Tenho ideias muito vagas dos momentos em que tive consciência. Momentos em que, dentro da minha imaginação, estava num quarto pequeno, sentia-me apertado com enorme dificuldade em respirar - reflexos claros das dificuldades neurológicas que irei contar nos próximos dias. Nesta fase, sem um diagnóstico fechado, a incerteza dominava os principais intervenientes do lado de fora: a minha Família. A minha mulher: Catarina, que teve a vida suspensa nestes dias iniciais, tal como a dos meus três filhos — Tiago, Laura e Afonso —, a dos meus pais, do meu irmão e de toda a família próxima. Hoje, é a eles que me quero dirigir, porque é enorme a incerteza e a angústia de um familiar que vive "do lado de fora", impotente. O tempo passava sem que soubessem o que iria acontecer. Nesta fase o perigo de vida era real porque todas as minhas funções vitais estavam a ter perturbações nomeadamente o sistema respiratório e ca...

Faz hoje 3 anos

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  Há precisamente 3 anos eu vivi um dia que descreveria como ir “dos 100 ao 0” em 24 horas. Entrei de madrugada nas urgências sem conseguir engolir. Estamos a falar de algo básico, que qualquer pessoa normal faz sem pensar. No entanto passei a madrugada com um copo dos dispensadores de água na mão para nele ir deitando a saliva que não conseguia engolir. A meio do dia fui internado numa enfermaria com o aviso: “Sr. Paulo, provavelmente vamos ter que o intubar”. De repente percebi que a minha existência estava em perigo!