1º Dia Fora deste mundo

 As minhas memórias da fase em que estive em coma induzido são mínimas. Tenho ideias muito vagas dos momentos em que tive consciência. Momentos em que, dentro da minha imaginação, estava num quarto pequeno, sentia-me apertado com enorme dificuldade em respirar - reflexos claros das dificuldades neurológicas que irei contar nos próximos dias.


Nesta fase, sem um diagnóstico fechado, a incerteza dominava os principais intervenientes do lado de fora: a minha Família. A minha mulher: Catarina, que teve a vida suspensa nestes dias iniciais, tal como a dos meus três filhos — Tiago, Laura e Afonso —, a dos meus pais, do meu irmão e de toda a família próxima.

Hoje, é a eles que me quero dirigir, porque é enorme a incerteza e a angústia de um familiar que vive "do lado de fora", impotente. O tempo passava sem que soubessem o que iria acontecer. Nesta fase o perigo de vida era real porque todas as minhas funções vitais estavam a ter perturbações nomeadamente o sistema respiratório e cardíaco.


Sabia que, além do que me ia custar a mim entrar no desconhecido de uma sedação profunda como um coma induzido, precisava de dar esperança a quem ficava a assistir. Por isso escrevi no caderno que a Catarina tinha com ela uma mensagem que se tornou o meu mantra de sobrevivência:

"Agora vou ter que me focar em ter a cabeça limpa, pensar em coisas positivas e acreditar no melhor.

Eu Vou Vencer!

Eu não vou deixar a Catarina e os meus filhos Sozinhos!"

(Peço desculpa pelo texto desbotado. foi a humidade das lágrimas que esta escrita gerou)

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